O Biomares na Califórnia

A tarefa de monitorização da biodiversidade a ser desenvolvida no Biomares inclui o estudo das fases larvares dos peixes, que crescem e se desenvolvem na coluna de água. Durante estas fases iniciais de desenvolvimento, as larvas podem estar sujeitas a condições ambientais muito diferentes daquelas que os adultos enfrentam; a mortalidade é muito elevada e são muitos os factores que podem influenciar o sucesso da transição para o habitat onde irão viver na fase adulta (recrutamento).

A colaboração que existe (ver notícia de 2010.4) entre o Biomares e a Dra Jennifer Caselle, do Marine Science Institute (MSI) na Universidade da Califórnia Santa Barbara (UCSB), estende-se também à compreensão da relação entre a fase larvar e os padrões de recrutamento para os recifes, que é um dos aspectos que tem vindo a ser alvo de estudo no Programa PISCO (http://www.piscoweb.org/research/science-by-discipline/population-connectivity/recruitment) e que tem permitido com grande sucesso a compreensão de diferenças no recrutamento entre anos e locais ao longo da costa da Califórnia.

No programa PISCO, a recolha de recrutas é feita desde há alguns anos de forma regular (de 2 em 2 semanas durante a época do recrutamento), através da utilização de substratos artificiais que se designam por SMURFS (Standard Monitoring Units for the Recruitment of Reef Fishes). Estes substratos artificiais são muito eficazes para recolher os recrutas de algumas das espécies de peixes que vivem no ambiente rochoso costeiro da Califórnia, semelhante ao da Arrábida (Fig.1). Só com uma monitorização constante se conseguem distinguir alterações que podem ser devidas a flutuações nos factores oceanográficos ou devidas, por exemplo, às medidas de protecção nas Áreas Marinhas Protegidas.

Os SMURFS são colocados na coluna de água e no final da fase larvar os peixes assentam nestes substratos, cuja estrutura se pode confundir com a das algas; com o auxílio de uma rede de grandes dimensões, através de apneia, os mergulhadores rapidamente recolhem os SMURFS e substituem-nos por outros, de modo a que a monitorização possa continuar (Fig. 2). Já no barco os peixes são retirados dos SMURFS (Fig.3) e congelados.

Após este trabalho de campo, há um extenso trabalho de laboratório até se poder reconstituir a história passada durante a fase larvar. Esta reconstituição pode ser feita através da análise à microestrutura dos otólitos, pequenas estruturas calcárias que existem no ouvido interno dos peixes. Estas estruturas têm geralmente a deposição diária de novas camadas, formando anéis diários, que poderão ser visíveis ao microscópio (Fig.4).

Durante a minha estadia no MSI, tive ainda a oportunidade de divulgar o projecto BIOMARES e em particular a investigação que tem sido feita sobre a fase larvar e o recrutamento de peixes no Parque Marinho Luiz Saldanha, a vários investigadores do MSI. Adicionalmente, fiz ainda uma acção de divulgação do projecto BIOMARES através de uma apresentação a uma turma do 6º ano (Fig.5), que se encontrava particularmente motivada para a necessidade de conservação do meio marinho e para a importância das áreas marinhas protegidas e da conservação da biodiversidade e de habitats fundamentais. As crianças compreenderam muito facilmente os objectivos do BIOMARES e mostraram grande respeito e entusiasmo por todas as acções desenvolvidas.


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